quinta-feira, 26 de agosto de 2010

LAPSOS DO TEMPO


fotografia de felipe cohen
procuro cultivar o gesto de falar sobre imagens que  me inspiram. e  algumas delas, especialmente, me instigam de maneira desconcertante.  e desde que vi essa fotografia sinto-me estimulada a falar algo. precipito-me, portanto, nesse exercício e corro o risco do  óbvio ululante e de não conseguir tampouco traduzir em palavras aquilo que vejo.

o que mais seduz nessa imagem e a sobreposição dos tempos que se mostram. há o tempo do instantâneo, do click, o tempo do agora, em que a ruína está sendo escamada e descascada para receber um outro tempo, o futuro do presente, expresso no olhar atento e concentrado da mulher que reflete sobre aquele espaço como uma  conjugação do passado com o presente e o futuro. tudo se revela no tempo suspenso da observação da ruína e que se sustenta no gesto indagador.

os tons e semi-tons amarelados das paredes descamadas e dos cabelos da mulher caminham, de maneira sutil, em direção a um sépia que aponta, decisivamente, para uma névoa de tempo que paira sobre a imagem. e no exato instante que esse névoa de tempo começa a se dissipar, a imagem se volta para o passado, mais precisamente, pode-se dizer, para o passar dos anos,  à ação do tempo sobre as coisas. e mais do que mostrar épocas distintas ou a idade das coisas, essa fotografia é pura memória do tempo. viva, transformadora e  inquietante.

3 comentários:

Juju disse...

Como assim risco do óbvio e n conseguir traduzir em palavras o q v e sente? Sempre sou chacoalhada c seus escritos, nunca a mesmice, sempre enxuto, certeiro! N sei o q me toca mais, a imagem ou as palavras...

Anônimo disse...

Déa
q bom q vc voltar a escrever aqui.
essa orfandade eu ñ queria.
e concordo com juju acima "N sei o q me toca mais, a imagem ou as palavras..."
estava com saudades de ler.
bj
Lina

cristina disse...

Linda imagem, o texto poesia pura. Imagem e palavra em sintonia total. Adoro ver as imagens que você colhe no meio desse universo imenso da fotografia. Inspiradoras sempre.
Também adoro ver as suas imagens, quero mais!
bjs