quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

SE ORIENTE RAPAZ!

precisava ser mais duas ou três andréas. uma só pra ficar em casa, arrumando os meus discos, os livros, as gavetas, fuçando nas caixinhas esquecidas, ouvindo jazz, pregando um novo quadro na parede, recebendo os amigos para um bom papo, uma boa música e uma boa comida - como fiz ontem no dia de santos reis e foi absolutamente maravilhoso!! outra só pra ficar andando (pelo rio de janeiro e por onde quiser), fotografando, escrevendo, observando. outra andréa, lúdica, ficaria brincando com a clarice o dia inteiro, rindo, cantando, desenhando, dançando - leves e soltas como bolha no ar! outra ficaria na frente do computador, atuando na blogsfera, vendo os vídeos no youtube, descobrindo um novo mundo em janelas virtuais. uma outra mais séria, que também ficaria na frente do computador, só que sem navegar sem rumo. esta só terminaria uma dissertação de mestrado, escreveria o artigo sobre o samba carioca, transporia para o papel dois ou três projetos que moram nas ideías... outra, importantíssima, só pra ganhar dinheiro! e talvez uma outra, etérea, sem corpo e sem espaço, uma só vontade, desejo e pensamento, que não dorme e não come, só fica orquestrando essas outras andréas. menos corpórea mas nem por isso menos real que as outras, pois seria a fonte de tudo, das outras andréas e de todo esse mundo multifacetado. puro pensamento, polifônia, pluralidade. e parafraseando o poeta, traduzir uma parte nas outras partes - que é uma questão de vida ou morte - será arte?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ARTIGO

A Revista Eletrônica Jovem Museologia acaba de lançar número novo na Web. A edição conta com um texto de minha autoria sobre o fotógrafo francês Marcel Gautherot. Já vou avisando que se trata de um dos meus primeiros textos sobre a obra de Gautherot mas serve como um panorama da importância da fotografia na construção da imagem do Brasil. Para os que apreciam uma leitura acadêmica, é claro! Como o texto não tem imagens vou postar aqui uma foto de Gautherot do reisado, só porque hoje é dia de reis!

acervo marcel gautherot/instituto moreira salles

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

DOMINGOS ENSOLARADO

Foi fácil decidir encarar a chuva e sair da toca nesse fim de domingo. Nada mais sedutor pra mim do que assistir a um filme do Domingos de Oliveria, esse fantástico ator e diretor. "Juventude" é um filme que me deixou com lágrimas nos olhos, pela beleza e sensibilidade em tratar de temas de tecitura tão frágil: amores, juventude, filhos, morte, filosofia, amizade, ou melhor dizendo, da vida nas suas mais sensíveis dobraduras e da perplexidade diante dela. O trio de atores, composto pelo próprio Domingos mais Paulo José e Aderbal Freire-Filho, está impecável. Domingos de Oliveira é o Woody Allen carioca, não tem jeito. Seus filmes são cheios de humor e fina ironia sobre os temas mais humanos e contundentes. Certas cenas são como radiografias das relações humanas e eu considero esse poder admirável. Só por isso valeria a pena ter ido ao Espaço de Cinema, mas me surpreendi logo no início da sessão com a apresentação de um curta-metragem delicadíssimo intitulado "O teu sorriso", de Pedro Freire, com Juliana Carneiro da Cunha e Paulo José. Eu nem me lembrava mais da última vez que tinha assistido a um curta-metragem antes de um longa, como acontecia nos velhos e bons tempos que não voltam jamais. O curta é um filme sobre o amor, a paixão, sobre a possibilidade do amor em qualquer momento das nossas vidas. A cena inicial, com os dois amantes ao som de um violão, é absolutamente maravilhosa. E, gente, o que é Paulo José?! que ator formidável!!


Domingos de Oliveira é diretor de 'Todas as mulheres do mundo', 'Separações', 'Feminices' e 'Carreiras'.

A DELÍCIA DE SER O QUE É

final de semana absolutamente maravilhoso (estou adorando estas duas palavras juntas: absolutamente e maravilhoso!!). final de semana de encontro comigo mesma e com a minha paz interior. final de semana com um rio de janeiro pleno de sol e chuva, vento e calor. final de semana com lou reed, bob dylan, leonard cohen e yusuf, outrora, cat stevens. final de semana mergulhada nas minhas imagens, as que produzo, quais sejam, todas elas, a auto-imagem e as outras, todas, que não deixam de ser nunca auto-imagens também. final de semana exercicitando o aprendizado do tempo em mim. final de semana sem espelho retrovisor. final de semana de namoro com o meu apartamento e minhas coisas tão queridas e cultivadas. final de semana com café e cigarros. final de semana com saudade gostosa da minha filha clarice. final de semana me sentindo uma delícia!!

DANCE !!

sábado, 3 de janeiro de 2009

O TEMPO

O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo porver igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia ápos dia; existe tempo nas cadeiras onde sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia: rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é: por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto: começar as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para erguer os alicerces e as paredes de uma casa; aquele que exorbita no uso do tempo, precipitando-se de modo afoito, cheio de pressa e ansiedade, não será jamais recompensado, pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.

Trecho (absolutamente maravilhoso) de Lavoura Arcaíca, Raduan Nassar.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

TOCAR A CHUVA

Indescritível o prazer que tive hoje ao andar na chuva.

Pele, passo, poça.
Pele como vidro de janela.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

ENFIM UM ANO NOVO!!


Que 2009 seja cheio de bons momentos!!
Bom, o post de hoje era para ser só a poesia da porteirinha da minha filha, metáfora perfeita pra esse fim de ano. Que 2009 chegue renovador e forte pra valer como o dentinho novo que já desponta no sorrido de Clarice e que 2008 fique guardado na memória, numa caixinha de velhas lembranças ou então jogado em cima do telhado. Mas não posso deixar de falar das imagens que ando vendo pela internet (a televisão jamais divulgaria isso!) e que vou mostrar aqui sim porque o mundo não é cor de rosa, porque acho que todos precisam ver, porque a guerra é uma indignidade, porque existe a intolerância e a morte gratuita de crianças. São imagens fortes demais. Leiam os comentários de Saramago e Nassif sobre o que anda acontecendo de mais repugnante nesse mundo. E falo disso aqui e agora porque acredito que seremos capazes de mudar essa realidade. Não tem aquela história de que o farfalhar das asas de uma borboleta podem provocar um tsunami? Pois é, podemos, no nosso mundo, com pequenas ações e pensamentos, fazer com que essa realidade imunda fique apenas como exemplo do que não queremos e não como contraponto de nossos desejos!
Os cadáveres de cinco irmãs palestinas de 4 a 17 anos mortas no bombardeamento nocturno israelita a uma mesquita do campo de refugiados de Yabalia (Gaza) jazem num hospital. Agencia France Press - Publicada en El País - 27-12-2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Meu sobrinho, João Pedro, no auge dos seus três aninhos, olha bem para a minha mãe, Maria, vasculha o estojo, escolhe um lápis azul e diz: "Vó, pinta o meu olho da cor do seu?"

VESTÍGIOS DE UMA NOITE CARIOCA




segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

CAIO FERNANDO ABREU


"pois é, eu não quis, nem sei por que, tem um amigo meu que diz que tudo é bom como experiência, mas tem umas experiências que eu não quero mesmo ter porque acho que tudo vai ficar mais difícil e eu não vou conseguir mais ficar dentro de mim mesmo. Se eu não conseguir ficar mais dentro de mim mesmo eu vou ficar sozinho, porque não estou acostumado a ficar fora de mim mesmo."

trecho de ovelhas negras

AGENDA



coisas para se fazer na última segunda-feira de 2008
ouvir piazzola e gardel na vitrola,
tomar café, lavar louça, passar vassoura pela casa,
acabar de desfazer as malas,
cortar o sabão da minha mãe,
fazer uma máscara pro rosto,
cuidar das mãos e dos pés.
esconder os fios brancos do meu cabelo.
eleger cores para o ano novo.
provocar meu coração
ouvindo aquele disco lindo da Fátima Guedes.
durmir nas nuvens numa tarde sem nuvem alguma.
pegar o ônibus e descer no ponto errado,
pagar a última conta do ano,
passear por Laranjerias e Cosme Velho.
comprar flores amarelas e brancas.
cozinhar arroz integral,
cortar beringela, tomate, cebola, alho e o dedo.
preparar um banho morno com chá e oléo de amêndoas.
fazer lanchinho na casa Cavè
ver o Makely no CCC

ANTI-MÉTODO PARA LEITURAS

Disse que estou lendo 5 livros de uma vez. São eles: 1808 do Laurentino Gomes, que espero terminar antes do fim de 2008, já que é uma leitura atrasadíssima. O Pequeno dicionário de percevejos do Nelson de Oliveira, reunião de contos deliciosos - esse livro está quase indo pra estante, mas ainda frequenta a minha cabeceira. Estar sendo, ter sido, já citado duas vezes aqui, livro FANTÁSTICO da Hilda Hilst. Coisa parecida pra mim só o Ùltimo round do Cortázar. Leio ainda Ovelhas negras de Caio Fernando Abreu, livro que só existe porque o autor tinha apreço pelos rascunhos e não jogava fora nada do que escrevia. Esse livro é como uma pequena coleção de socos no estomâgo. Ácido, corrosivo e cruel, pois apesar de abarcar um período longo (de 1965 a 1995), grande parte foi escrita no difícil período do exílio de sua geração, durante a ditadura. E, finalmente, Cartier-Bresson, o olhar do século, biografia de um dos maiores fotógrafos do mundo, de Pierre Assouline. Esse é leitura quase obrigatória, adoro biografias e adoro fotografia. Agora já estou de olho no Rio de Janeiro 1930-1960: uma crônica fotográfica, de George Ermakoff, que preciso!!!! Enfim, só leitura prazerosa.

O CADERNO DE SARAMAGO

Não deixem de acompanhar o maravilhoso Caderno de Saramago. O último texto é de uma delicada sensibilidade, vê de perto um recorte de uma família, uma família como uma das nossas, talvez.

domingo, 28 de dezembro de 2008

RETRATO DA COISA ENQUANTO EU

Neste fim de ano estou sozinha. Sou sozinha. Todos somos! Difícil e bom, dor e delícia. Escolha minha. Vou onde quero, faço o que tenho vontade. Meus companheiros são os discos, os livros, o computador, a cidade e o vento que sopra nela. Não me preocupo com a festa de passagem de ano, passo até em silêncio, se for o caso, e não ficaria deprimida por isso. Acho bom o silêncio nessa hora em que poucos podem ser ouvidos. Sou uma pessoa impaciente, curiosa, rápida e incapaz de dominar meu próprio temperamento. Procuro secretamente o meu foco e o meu modo auto-limpante. Sou frost-free, não deixo meus resíduos por aí. Escondo meus desatinos, por mais que eles gritem. Leio 5 livros ao mesmo tempo, vejo um filme por dia, faço minha própria comida, durmo pouco e isso me faz bem. Gosto muito dos meus amigos, mas sou incapaz de perdoar certos deslizes. Namorado de amiga minha não é homem, no sentido mais viril e sexual da definição. Isso pra mim é regra e não tem discussão. Posso soar conservadora, mas meus sentimentos não toleram certos excessos. Eu, quando amo, amo muito, sou protetora. Por isso sou mãe, canalizo esta energia maternal instintiva. Pesco uma frase de Caio Fernando Abreu: "depois de todas as tempestades e todos os naufrágios, o que fica de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro". Um sobrevivente é acima de tudo um forte. Não sou mística ou religiosa. Não rezo, não oro, não peço, apenas agradeço. Deus para mim são as coisas bonitas, as atitudes boas, a manifestação da(s) natureza (s), os momentos inesquecíveis, o olhar cúmplice dos amantes, o sorriso de uma criança. Deus pode ser quem ou o quê. Não importa. Gosto, no entanto, do I Ching e do tarôt do Crowley. Astrologia me confunde, sou cética demais pra isso. Posso ser áries com ascendente em virgem ou áries com ascendente em leão, e os dois parecem fazer sentido (minha mãe não sabe exatamente a hora do meu nascimento) . Gosto de pular de ponte sobre um rio de águas profundas, fazia muito isso na infância, mas gosto também de ver a água tranquila, decantando devagar. Sou mais cachoeira do que mar. Adoro o Rio de Janeiro porque tem montanhas. Leio os jornais todos os dias. Tenho sono leve, acordo com passarinho cantando. Bebo litros de água. Tomo chá diariamente. Gosto de escrever, às vezes nem quero, mas quando vejo estou com lápis e papel na mão. Minhas melhores idéias tomam a primeira forma com lápis e papel, tenho apreço pelos rascunhos. Meu relógio biológico é preciso, conheço muito bem meu corpo. E acho que não existe terapia melhor do que amar e receber amor, do que gostar de verdade do que se faz e ser reconhecido por isso. Ser mulher pra mim é uma busca constante, não tem fim, penso. A morte não me preocupa. O desejo me move. Uma fogueira arde em mim, transformadora, destruidora, pura combustão. O vento mexe comigo, a água me acalma e a terra me apraz. Sou forte, fogo, força. Mas sou pequena, teimosa, confusa e autoritária, porque quando vi já fiz e exijo troca. O que eu não sou deixo pra depois.

CAFÉ DE LOS MAESTROS


Vou chover no molhado. "Cafe dos maestros", de Miguel Kohan, é um filme bonito e uma espécie de Buena Vista Social Clube, onde Gustavo Santaolalla (responsável pela trilha sonora de filmes como "O segredo de brokeback mountain" e "Babel") faz o papel de Ry Cooder. Os velhos músicos são outros, tão excepcionais como em Bunena Vista, o idioma, no entanto, é o mesmo. Não tem como não gostar já que a música é excelente e o naipe de músicos fantástico e absolutamnte cativante. O grande lance do filme é juntar toda essa velha guarda do tango pré-Piazzola em um memorável espetáculo no Teatro Colón. O projeto inclui ainda um CD e um livro de fotos (pra mim não existe instrumento mais fotogênico que o bandoneón). Nostágico como tem que ser, o documentário não deixa de ser triste, bate um coisinha no peito e isso, afinal de contas, é o tango!

O filme explora ainda a genealogia do tango entre os imigrantes, negros e o candombe uruguayo. Essa raiz multicultural do tango, apesar de sua identidade ser marcadamente argentina, possibilitou com Piazzola a revolução do gênero. Vide o maravilhoso disco "SUMMIT - Reunión Cumbre" de Gerry Mulligan e Astor Piazzola e outros.
Bom, depois de assitir a Café de los maestros não nos resta muita coisa a não ser ouvir um tango argentino, dá-lhe Pugliese e Piazzola na vitrola!

PELO TELEFONE

Esse vídeo dispensa palavras...