sexta-feira, 6 de maio de 2011

O PORTÃO DA ESCOLA

o portão da escola da clarice, em dia ensolarado, fotos feitas pelo meu celular... deu vontade de levar a camera outro dia e fazer um ensaio de verdade... inspiração é uma coisa engraçada, bate qualquer hora, em qualquer lugar. e eu ando inspirada, tendo sonhos incríveis, vestindo novas cores, buscando mudar de caminho, buscando novos sabores... acho que estou apaixonada! é, é isso, estou apaixonada! ah, que coisa boa! a série completa aqui: http://www.flickr.com/photos/andreanestrea/sets/72157626661446948/show/

segunda-feira, 2 de maio de 2011

LÁSLÓ MOHOLY-NAGY

Os analfabetos do futuro serão aqueles que não sabem fotografar. László Moholy-Nagy -1929.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

VER COM OS SENTIDOS

"A fotografia não é uma propriedade exclusiva das pessoas que vêem, mas também uma propriedade possível dos cegos." Evgen Bavcar. 


o trabalho de evgen bavcar é absolutamente incrível, cego desde os 11 anos de idade, ele nos revela um mundo que escapa aos olhos de quem vê. seus sentidos veem por ele, ele vê através de tudo... esse nu entre luzes lembra muito um autorretrato que fiz. eu não conhecia essa imagem até hoje, mas dialogo com ela. o autorretrato está aqui.

terça-feira, 26 de abril de 2011

REVOLUÇÃO DO OLHAR RUSSO



esse vídeo, um tanto didático, que achei no youtube, nos dá uma visão geral do que foi a vanguarda russa em termos de imagem. a exposição 'Aleksandr Ródtchenko: revolução na fotografia' que esteve em cartaz no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro e fica até 01/05 na nova Pinacoteca do Estado, em São Paulo, é uma das mais bonitas e bem montadas exposições que eu já pude ver em toda a minha vida. praticamente todas as ampliações são de época, vintage, como se diz hoje em dia, e feitas pelo próprio Ródtchenko, ou seja, são verdadeiros tesouros. nunca vi nada tão precioso em fotografia. e olha que tive em mãos alguns retratos de Nadar de meados do século XIX, verdadeiras jóias, quando fui bolsista da Biblioteca Nacional. o que faz essas imagens serem tão preciosas, no entanto, é o conjunto delas. estão expostas no Brasil uma parte considerável do acervo e do olhar de Ródtchenko que foi pintor, escultor e designer gráfico, além de excelente fotógrafo. imperdível pra quem está em São Paulo. eu passei duas tardes maravilhosas apreciando esta exposição na sede do IMS aqui o Rio, com direito a cafezinho, dia de sol e boa companhia. recomendo o catálago da exposição!

sábado, 23 de abril de 2011

DOMENICO - 2 (+ X + Y + Z) = CINE PRIVÊ

o título do post não é uma provocação, mas uma preposição que, contrariando a matemática e a lógica, só eu posso afirmar. confesso que só voltei meus olhos pra domenico e sua turma, o tal projeto +2, depois que eles assinaram a trilha sonora do grupo corpo. tenho muita, muita preguiça pras coisas novas que pintam por aí, principalmente no cenário musical do rio de janeiro. minha opção primeira, segunda e terceira é sempre ouvir os meus velhos discos de jazz ou música instrumental. curiosidade, no entanto, é uma coisa que sempre tive e acabei tendo em mãos e ouvidos o disco 'cine privê'. ouvi uma vez e senti um certo estranhamento, o que é um bom sinal. foi fácil apertar o play novamente e o 'disco rodou' algumas vezes aqui em casa. eu só vi domênico duas vezes, a primeira foi durante um show de silvia machete no oi futuro e depois, em outro oi futuro, na peça do domingos de oliveira. obviamente que já tinha visto, em dvd, o 'adriana partimpim 2' com a minha filha e o cara tá lá na bateria e tals.. bom, mas tudo isso pra começar a falar do disco. acho que pra dizer certas coisas precisamos nos situar, é bom que o leitor saiba de onde estou falando, por isso a necessidade de tantas palavras, por mais banais....  eu gosto do disco. tem uma  sonoridade ímpar, deliciosos barulhinhos e uma voz que parece que tá aqui ao lado, no sofá da sala. não sei se isso é um elogio, obviamente que são impressões. as músicas que mais gostei são 'os pinguinhos' (parece uma brincadeira com uma criança ou, pelo menos, com o universo infantil) e 'pedra e areia', que é demais de boa. adorei a canção que fala italiano, vi ao vivo antes de ouvir o disco e gostei bastante, foi a porta de entrada para o disco. mas a minha preferida talvez seja 'sua beleza', foi ouvindo essa faixa que meu pensamento musical vez links com outras coisas que ouço... e falo aqui de memória musical, antes de tudo, e de paisagens sonoras, imagens que cantam, fotografias que dançam, miragens... enfim, 'X', 'Y' e 'Z' são variáveis, imagine cada uma delas... ouça o disco, veja o filme!

terça-feira, 19 de abril de 2011

TUAREG

'mas ele é guerreiro, ele é bandoleiro, ele é justiceiro, ele é mandigueiro, ele é um tuareg!'
essa noite deu uma vontade avassaladora de ouvir gal costa dos bons e velhos tempos. meu disco preferido dela é o 'cantar', mas pra dar uma arejada resolvi ouvir esse LP, que é de 69, chave de ouro pra essa década louca... infelizmente o meu vinil não tá em boas condições e recorri ao youtube pra ouvir as faixas desse disco que é um dos mais experimentais e radicais de gal costa. pouco visitado, é certo, mas absolutamente incrível e ousado! psicodelia, rock, experimentalismos totais... aí tem jards macalé, guitarra de lanny gordin, capinam, roberto e  erasmo, caetano, tudo junto e misturado com uma boa dose de fúria. eu adoro a segunda faixa do lado A, 'tuareg', música de jorge ben, o jor, que tem o mesmo título do livro de alberto vasquez-figueiro, livro que eu ainda li mas quero muito ler. dizem que 'tuareg', nome de origem árabe, significa 'abandonado pelos deuses'. os tuaregues são um povo, homens que vivem há milênios no deserto do sahara, ou seja, é um povo bravo é forte! aumente o volume e faça da sua sala uma pista de dança!

PARADA CARDÍACA


essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.

vem da zona escura
donde vem o que sinto.
sinto muito,
sentir é muito lento.

paulo leminski


domingo, 17 de abril de 2011

ARÍCIA MESS

arícia mess é uma cantora cheio de gestios e dona da voz. seu disco 'onde mora o segredo' é todo bem cuidado e eu recomendo! fui no show que aconteceu aqui no rio de janeiro no dia 02.04. quem tiver oportunidade de vê-la cantar, não perca! as outras fotos estão aqui.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O CADERNO AMARELO

'caminhar de mãos dadas atravessando estações' é uma das páginas d'o caderno amarelo'. 'o caderno amarelo' era pra ter sido uma homenagem, uma declaração de amor, a tradução de uma vontade de estar junto, um gesto de absoluta entrega e motivação. quando ele começou a ser 'escrito' existia tudo o que movia, existia uma admiração incondicional e um afeto cego que se foi como éter, evaporou, desapareceu, num átimo, num istmo, num lapso... o caderno ficou inacabado e, por motivos não aleatórios, ficou sem meio, ficou sem fim. o caderno é a materialização de certas frases, de certos momentos, de alguns desejos e constatações que a gente só tem quando está apaixonado e vive num mundo onde só cabem duas pessoas. 'o caderno amarelo' foi entregue a quem ele foi dedicado inicialmente, mas acabou sendo devolvido. eu pedi que ele me devolvesse. e ele me devolveu. se fosse eu a pessoa que tivesse ganhado esse caderno, eu juro, jamais devolveria, guardaria pra sempre... por isso, esse caderno pertence a quem o concebeu. e apesar de tudo o que o  inspirou não existir mais - e talvez nunca tenha existido, esse caderno, quando começou a ser escrito, era só desejo de querer bem, de bem querer... nada que o originou previa que seu fim seria ficar dentro de um envelope pardo, escrito 'apto 1215' a caneta azul, no fundo de uma gaveta escura...suas folhas agora são uma espécie de lembrança de algo perdido, de algo que não faz e não fez nenhum sentido. é uma espécie de memória de um lugar que a gente conhece e mas não sabe mais como chegar... segue aqui o link para quem quiser ver o caderno inteiro, mesmo sem fim...: o caderno amarelo no flickr.

terça-feira, 12 de abril de 2011

JUAN RULFO

"no filtro as gotas caem uma após a outra. ouve-se, saída da pedra, a água cair dentro do cântaro.
ouve-se. ouvem-se ruídos; pés que se arrastam no chão, que andam, que vão e vêm. as gotas continuam caindo sem parar. o cântaro transborda fazendo a água correr sobre um chão molhado."
trecho de 'pedro páramo', foto de juan rulfo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

SATURDAY SUN

dia desses, melhor dizendo, sábado desses, sai de casa pra trabalhar mais cedo. fazia uma manhã ensolarada e eu, de dentro do ônibus, o 434 que passa no flamengo e vai em direção ao leblon pela lagoa, fiz uma série de fotos. queria traduzir um pouco como é ver a cidade de dentro de um ônibus em alta velocidade. eu gosto de fazer esse caminho, adoro passar pela lagoa. é um dos cenários mais bonitos do rio. e é dentro desse cenário que penso o quanto é bom viver nessa cidade. a inspiração pras fotos foi, na verdade, a música de nick drake, que dá nome ao post, 'saturday sun'. adoro nick drake e estava ouvindo o disco que tem essa música sem parar nestes dias. pra ver mais fotos, é só clicar aqui.

domingo, 10 de abril de 2011

KEITH JARRETT NO RIO

ontem tive uma noite especial, fui ao theatro municipal do rio de janeiro pra ver o concerto solo de um dos maiores pianistas do mundo. nem sei dizer quando conheci o trabalho de keith jarrett, mas desde sempre gostei. do clássico 'koln koncert' ao último disco, 'jasmine', sempre que posso e cabe, ouço o cara. tenho dois DVD's, 'último solo' e 'the art of improvisation'. queria muito ter o concerto de colônia (köln  concert) em CD, pra poder ouvir sempre, mas não tenho, infelizmente. confesso ainda que um dos meus maiores desejos e assistir a uma apresentação de keith jarrett com o jack dejohnette e gary peacock, o trio de ouro! de qualquer modo, o concerto de ontem foi lindo e emocionante, com direito aos gemidos, sussurros e grunhidos tão tradicionais do pianista. keith jarrett é sexy aos 66 anos e revelou uma maneira de tocar que eu, realmente, nunca tinha visto. uma agilidade absurda, uma intimidade ímpar com o instrumento. show!! vesti o vestido que melhor me veste, usei meus brincos mais preciosos e fui para o municipal apreciar o espetáculo. theatro lotado, todo mundo em silêncio, não vi ninguém fotografando (ele odeia ser fotografado), uma beleza de público, fiquei orgulhosa do rio. e nos dois set's de 40 minutos cada, e nos três bis, fui levada por diversas paisagens sonoras que nunca vão sair da minha cabeça. sai leve e plena do theatro municipal. e digo que só experimentei sensação parecida em minha vida no dia que terminei de ler 'grande sertão veredas' do guimarães rosa. fui dormir repleta de paisagens e aventuras!
foto da apresentação na sala são paulo, 06.04.

quarta-feira, 23 de março de 2011

LIZ TAYLOR

quando eu era uma moleca de pensamentos diletantes lá na minha minas natal, queria entender como uma mulher podia ser tão bonita como elizabeth taylor. e ficava pensando na sua proeza de colecionar maridos... invejei liz taylor, queria ter sete maridos como ela. mas achava a artimanha impossível, eu não tinha aqueles olhos violeta de parar quarteirões... somente muito depois é que fui conhecer a história de vinicius de moraes, outro colecionador de amores, e percebi que o lance não tinha muita relação com a beleza, não. na oportunidade, eu casava, fácil, com os dois!

terça-feira, 22 de março de 2011

REAL DREAMS - DUANE MICHALS

duane michals é um dos fotógrafos mais instigantes que eu conheci nos últimos tempos. e como as coisas não aparecem à toa nas nossas vidas, eu diria que conhecê-lo foi como quebrar o espelho. e daí dá-lhe juntar estilhaços.... suas fotografias são provocações, como provocação é esse texto. sugiro que vc imprima e leia com atenção. é um soco no estômago de qualquer fotógrafo. para visualizar algumas das fotos (séries) que compõem esse livro, é só clicar REAL DREAMS. os grifos no texto são meus.


Real Dreams
             Nada é o que eu, uma vez pensei que fosse. Você não é quem você pensa que é. Você não é nada que possa imaginar.
            Eu sou um escritor de contos. A maioria dos fotógrafos são repórteres. Eu sou uma laranja, eles são maças.
            Nós temos que tocar outras pessoas para permanecermos humanos. O toque é a única coisa que pode nos salvar. Eu uso a fotografia para me ajudar a explicar minha experiência para mim mesmo.
            Alguns fotógrafos disparam, literalmente, em tudo o que se move, desejando de alguma maneira, em toda aquela confusão, descobrir "uma fotografia". A diferença entre o artista e o amador é o senso de controle. Há um grande poder em saber exatamente o que você está fazendo, mesmo quando você não sabe...
            Nós todos somos estrelas, apenas não sabemos isto. Eu pratico ser Duane Michals todos os dias e é tudo o que eu sei.
            A maioria dos retratos são mentiras. As pessoas raramente são o que parecem ser, especialmente em frente a uma câmera. Você pode me conhecer por toda sua vida e nunca se revelar, mostrar seu interior para mim. Interpretar rugas como personalidade é insulto não insight.
            A história da fotografia ainda não foi escrita. Você vai escrevê-la. Ninguém fotografou um nu até você fotografar, ninguém fotografou uma seqüência ou pimentões até você fotografá-loo. Nada foi feito até você fazê-lo. Não existem mais respostas, tire Weston das suas costas, esqueça Frank, Adams, White, não olhe para fotografias. Mate o Buda, eu sou meu próprio herói.
            Os livros de fotografia normalmente tem títulos como: O olhar do fotógrafo, ou a visão de..... e assim por diante, ou ainda, olhando fotografias; é como se os fotógrafos não tivessem cérebro, apenas olhos.
            Todas as coisas passam, assim até você passará. Precisamente agora seu tempo esta passando, precisamente agora.
            Eu me flagro falando com fotografias. Vejo uma fotografia de uma mulher e pergunto, "isso é tudo que você tem para falar? Posso ver os longos cabelos e o vestido. Será ela uma puta; uma mãe delicada, uma consumidora. Será que ela acredita em alguma coisa? Eu quero saber mais.
            Enquanto escrevo isto, nesse exato momento, milhares de pessoas estão morrendo, milhares estão nascendo. A terra está completamente viva com o brilho da primavera, estrelas estão explodindo - meu Deus! Esse é o grande mistério onde todos nós vivemos, é isso que chamamos vida, isso é o encontro transbordando tudo e eu penso que nunca saberei, nunca.
Eu sou o limite do meu trabalho. Você é o limite do seu. Isso é uma viagem. Nós não vivemos aqui. Quando eu falo, eu quero dizer nós. Tão rápido quanto eu digo a palavra agora ela já se torna passado.
            É muito fácil para o fotógrafo falsear, basta sair e fotografar vinte pizzarias, vai estar tudo lá: nas diferenças, nas mudanças.
            Algumas influências abrem portas e nos liberam, outras fecham e nos sufocam. A fotografia é particularmente sufocante.
            Eu acredito na imaginação. O que não posso ver é infinatamente mais importante do que eu posso ver.
            Os fotógrafos me dizem aquilo que já sei como o reconhecimento da beleza, coisas incômodas ou bizarras e isso não é a questão. Você teria que ser uma geladeira para não ser tocado pela beleza de um parque como Yosemite. A questão é lidar com a experiência total tanto emocionalmente como visualmente. Os fotógrafos devem me dizer o que eu não sei.
            Acho as limitações da fotografia estática enormes. Alguém tem que redefinir fotografia, tal qual é necessário redefinir a própria vida em termos das nossas próprias necessidades. Cada geração deveria redefinir linguagem e todas as suas experiências em termos pessoais.
            A palavra chave é expressão - não fotografia, não pintura, não escrita. Você é o evento, não seus pais, amigos, gurus, somente você pode ensinar a si mesmo.
            Tudo que experimentamos está na nossa mente, é tudo cabeça, o que você  está lendo agora, ouvindo agora, sentindo agora...
            Nós todos temos medo da morte. Mas nós já morremos, basta olhar a fotografia da formatura do ginásio, quem você vê ali esta morto, a foto do seu casamento, "ela" está morta. Precisamente agora você morreu.
            Tentar comunicar os sentimentos verdadeiros de alguém em meus próprios termos é um constante problema.
            Sou compulsivo com minhas preocupações com a morte, em outras palavras estou me preparando para a minha morte, mas se alguém num momento pusesse uma arma em meu estômago eu me mijaria e todas as minhas especulações metafísicas se molhariam.
            Quando você olha minhas fotografias, você está olhando meus pensamentos. Sou muito atraído à pessoa de Stefan Mihal, ele é o homem que nunca me tornei, somos completamente opostos, apesar de termos nascido no mesmo momento e se por acaso nos encontrássemos, explodiríamos como matéria e anti-matéria. Ele é a minha sombra e eu procuro me salvar dele.
            Eu apenas fotografo o que conheço, minha vida, não tenho a presunção de saber como são os negros, as famílias suburbanas ou travestis e nunca acredito em fotografias dessas pessoas posando para a câmera.
            Eu não sei de nada, e não posso contar com nada. Eu não estou certo de alguma vez ter tido certeza. Não sei o que terei deixado para traz quando chegar aos cinqüenta anos, e isto está bem.
            A visão das palavras nesta folha me agrada, é como uma forma de trilha que eu tenha deixado para traz, pistas, marcas estranhas, a prova que eu estiva aqui alguma vez.
            Quando eu tinha nove anos (no ano em que meu irmão Timothy nasceu) eu costumava sentar-me na beira da cama e ficar imóvel muito tempo depois que minha família já tinha ido dormir. Tentava encontrar o "eu" de mim, e que nesse silêncio acharia em algum lugar lá dentro do meu corpo o meu "eu". Continuo procurando!
            Nós somos todos uma construção mental, mudem nossas químicas, nosso ponto de referência e a realidade mudará.
            Sou um fotógrafo profissional e um místico diletante, mas preferiria ser um místico profissional e um fotógrafo diletante.
            Lembro da primeira vez que fiquei sozinho, tinha uns nove anos, vivia com minha avó, e meu melhor amigo Art tinha saído com sua família. A tarde pareceu longa e vazia. Sentia falta de alguém, estava vazio e uma enorme sensação de falta.
            Nenhuma das minhas fotografias existiriam, no chamado mundo real, se eu não as tivesse inventado. Elas não são encontros acidentais, testemunhos nas ruas. Eu sou o irresponsável. Estando Bresson lá ou não, aquelas pessoas teriam feito seu pic-nic à margem do Sena. Eles foram eventos históricos. Não existe uma fotografia. Não há um tipo de fotografia. O único valor de julgamento é o trabalho intrinsecamente. Será que ele me toca, mexe, me preenche?
            Qualquer um que define fotografia me apavora. Essas pessoas são foto-fascistas. Os limitadores. Eles sabem! Temos de lutar para nos libertar constantemente, não somente de nós mesmos mas sobre tudo daqueles que sabem.
            As vezes parece que estou a espera de que alguma coisa aconteça. É tão difícil imaginar que seja eu a pessoa que está escrevendo isto. Sinto-me uma outra pessoa, não interessada em uma ampliação perfeita e sim em uma idéia perfeita, pois idéias perfeitas sobrevivem à ampliações ruins, reveladores ruins e baratos, essas tais idéias podem mudar nossas vidas.
            "Se Duane deseja fazer fotografia, ele deveria fazer um estudo sobre os trabalhadores rurais ou operários, que são assuntos que podem provocar algumas mudanças sociais, fazer algo por mais alguém, alguma coisa nobre. Isto é o que eu faria."- Stefan Mihal
            Nós temos maneiras de fazer as mais extraordinárias experiências parecerem ordinárias, Nós verdadeiramente trabalhamos para destruir nossos milagres. Os melhores artistas deram de si próprios em seus trabalhos. Magrite foi um prêmio, Atget, Eakins, Redon, Brandt, Sanders, Balthus, De Chirico, Whitman, Cavafy. Aí está tudo o que se tem pra dar, eu sou meu presente a vocês e vocês são sues presentes pra mim.
            Muitos fotógrafos fotografam as vidas das outras pessoas, raramente a sua própria. Nós temos que nos libertar para nos transformar em aquilo que somos. A fotografia descreve muito bem.  
            Nossos pais e avós nos protegem da morte, mas quando eles morrem ninguém mais se coloca entre nós e a morte.
            Uma vez pensei que o tempo fosse horizontal, e que se olhasse à minha frente eu poderia ver a próxima quarta-feira, agora vejo que ele é vertical, diagonal e perpendicular. É tudo muito confuso.
            As pessoas acreditam na realidade das fotografias, mas não na realidade das pinturas, isso dá uma vantagem enorme para o fotógrafo, mas desafortunadamente os fotógrafos também acreditam na realidade das fotografias.
            As sentenças mais importantes normalmente são formadas de duas palavras: eu amo, me desculpe, por favor, me perdoe, me toque, eu preciso, eu gosto, muito obrigado. Tudo é assunto para a fotografia, especialmente as coisas difíceis da vida: ansiedades, traumas de infância, mágoas, pesadelos, desejos sexuais, todas essas coisas que não podem ser vistas são as mais significativas e não podem ser fotografadas apenas sugeridas.
            Eu gostaria de conversar com William Blake e Thomas Eakins.
 (Introdução do livro "Real Dreams" de 20 de junho de 1976) 
"Uma tentativa frustrada de fotografar a realidade"
             Que idiota fui eu ao acreditar que seria tão fácil. Eu confundi as aparências de automóveis, árvores e pessoas com realidade e acreditei que uma fotografia dessas aparências seria necessariamente uma fotografia delas. É uma verdade melancólica o fato que eu nunca serei capaz de fotografar as coisas da realidade e portanto só poderei falhar.
            Eu sou um reflexo fotografando outros reflexos com seus reflexos.
            Fotografar a realidade é fotografar o nada. 
                                                                                                          Duane Michals

quinta-feira, 17 de março de 2011

A CINELÂNDIA É DO BARACK

hoje eu fui até a cinelândia para comprar ingressos pro theatro municipal. ainda não pude ver o imponente theatro depois da reforma, que acompanhei de perto, pois trabalhei um ano na biblioteca nacional, justamente no período da reforma. eu gosto de pegar o metrô e descer na estação cinelândia e subir (quisera eu bem devargazinho) a escada rolante da saída 'passeio', adoooro sentir no meu rosto o vento forte que sempre sopra ali. adoro ver chegar devagar a imponência dos prédios antigos que ainda podem contemplar o pão-de-açúcar, o morro mais bonito do rio, de onde estão, quietos, impávidos, colossais. gosto de avistar o chafariz que enfeita o vazio deixado pela demolição do palácio monroe e gosto de imaginar um outro rio, onde esse palácio ainda vivia. gosto de tomar café no cine odeon, apesar do preço abusivo do café (quatro reais!) e me deliciar com o saboroso creme brûllée que servem ali. gosto de brincar de amelie poulain e quebrar delicadamente com a ponta da colher a crosta crocante do doce. gosto de rabiscar pensamentos em guardanapos sentada na mesa do café e observar o vento nos cabelos das árvores e dos transeuntes, gosto de ver saias sendo seguradas e mãos arrumando jubas retunbantes.... mas não gosto de ver o theatro municipal com cercas duplas, sinto-me exilada de um amor antigo. e não tenho vontade alguma de ver um filme chamado 'bruna surfistinha', em cartaz no mais bonito cinema da cidade. gosto ainda de almoçar no natural 'roots' que tem num dos prédios antigos e decadentes, um que fica bem ao lado do mcdonald's. acho engraçado comer uma comida macrobiótica vendo pessoas se entupirem de gordura e química do outro lado da rua... nesse restaurante tem um buda pendurado na parede, de bunda pra quem entra, acho engraçado e ali a garçonete, muito sem graça, me entregou o bilhete de um admirador bem mais velho que eu. e depois o coroa ainda me seguiu um pouquinho, com o olhar, claro...
com o municipal todo cercado não entendi direito onde os ingressos estavam sendo vendidos. mas consegui a atenção de um dos seguranças que estavam em alvíssaras com o movimento enorme da marcação do esquema de segurança para o discurso do presidente norte americano barack obama. o simpático segurança me levou até o anexo onde, finalmente, consegui comprar os ingressos pra mim, minha filha e meu amigos pra vermos 'metrópolis' com orquestra e ainda o meu tão desejado ingresso para o show de keith jarret. tive uma tarde recheada de bons prazeres, alimento da minha alma carioca que vislumbra paisagens que se hospedam na cinelândia!

terça-feira, 15 de março de 2011

MENINAS TRISTES

o encantamento arrebatador das meninas tristes de nicoletta ceccoli. essa imagem é uma das minhas preferidas. como disse meu amigo, POEsia.  tem algo de Poe, algo de Escher... E agora elas me lembrarm outras amigas, lindas e menos tristes, andréa, cris e georgia!

sexta-feira, 11 de março de 2011

DESENHOS ERÓTICOS DE KLIMT

os desenhos eróticos de klimt são uma verdadeira preciosidade. sensuais e envolventes, mesmo para os dias de hoje, revelam que o pintor tinha verdadeira obsessão pela beleza feminina. seus cadernos de desenho eróticos formam um belo retrato do feminino, um retrato despido de pudores. uma verdadeira delícia pros olhos.

terça-feira, 8 de março de 2011

DIA DA MULHER

desculpem, mas dia da mulher é o caramba! sou pela igualdade de direitos e torço por um tempo e um espaço em que as pessoas sejam tratadas como pessoas, e não como homens e mulheres! e não estou, afirmando isto, sendo machista e indo contra décadas de reconhecimento da mulher como parte integrante desse mundo. mas creio que precisamos dar, sempre e sempre, um passo a mais. viva o transgênero! viva flávio de carvalho, patti smith, frida kahlo, george sand, elke maravilha e laerte! em nome da superação do 'azulzinho pra menino' e 'rosinha pra menina'!

terça-feira, 1 de março de 2011

NICK DRAKE POR MARIANA MAGNAVITA

mariana magnavita compõem sua próprias músicas. é cantora e compositora. mas sua música tem dívídas com outros compositores e cantores. um deles é nick drake. mariana é uma brasileira-baiana, inglesa-oxfordiana e filtrou muito bem em seu trabalho o universo da música que ouviu desde criança. nick drake, com o clássico 'pink moon', ganha aqui uma versão com a percussão de jam da silva, caxixis e uma pegada que quebra o véu um pouco sombrio que há na interpretação original de nick drake. viola e cello, tão ao gosto da folk music inglesa, dão charme e força ao arranjo do chileno solovera, que comanda o violão. a música é universal e mágica. mariana magnavita é dona de rara beleza e de uma voz linda e demonstra nesse vídeo uma leveza e uma segurança ímpar. ensaio, passagem de som e show, tudo ligado pelo fio condutor da dança da menina que canta!o áudio é da apresentação ao vivo no solar de botafogo, no rio de janeiro.


fotos da apresentação no solar de botafogo aqui.
e aqui fotos do ensaio

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

MONICA SALMASO, GUINGA, LULA GALVÃO


acabei de chegar do teatro rival. adoro a monica salmaso e não perderia essa oportunidade de vê-la cantando ao lado de guinga e lula. o show foi lindo e incrível. música sem cenário ou figurino. musica nua no palco. pura música!
mais fotos aqui no meu flickr!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

NICK DRAKE


em caso de amor pleno e absoluto com nick drake, cantor e compositor inglês, avesso a sociedade e a fama. viveu no mundo dele, ensimesmado, e nos legou uma pequena obra com incríveis pérolas. conheci 'pink moon' na elegante interpretação de mariana magnavita em recente apresentação da cantora no rio de janeiro. nick drake gravou três discos 'five leaves left' (69), 'bryter layter' (70), 'pink moon' (71,)  e continua influciando gerações com sua música. seu último álbum foi gravado em duas sessões de estúdio, a meia noite, e o cantor estava acompanhado apenas do engenheiro de som e de seu violão. nick drake talvez seja fácil como um vício... morreu aos 27 anos, suicídio, provavelmente...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

NELSON RODRIGUES

"falam de tudo. da moral, do comportamento, dos sentimentos, das reações, dos medos, das imperfeições, dos erros, das criancices, ranzinzisses, chatices, mesmices, grandezas, feitos, espantos. sobretudo falam do comportamento e falam porque supõem saber. mas não sabem, porque jamais foram capazes de sentir como o outro sente. se sentissem não falariam."


foto: agencia Estado
o grande nelson rodrigues, em frase solta pelo mundo, sempre enfiando a faca enferrujada até o fundo e rodando, rodando...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

DUO FERRAGUTTI KRAMER

duo de acordeons com toninho ferragurtti e bebe kramer, ontem, no CCBB do rio de janeiro. a apresentação é parte da 'mostra reflexos' que acontece no mês de jnaeiro. imperdível! é proibido fotografar shows no CCBB mas, fiz algumas fotinhas, até a bateria da minha camera acabar. mais fotos aqui.

domingo, 16 de janeiro de 2011

MARIANA MAGNAVITA

MARIANA MAGNAVITA


No Teatro Solar de Botafogo / 26/01/2011 - 22h

Após uma temporada de shows na Inglaterra, no próximo dia 26 de janeiro (quarta-feira), a cantora e compositora baiana Mariana Magnavita desembarca, no Solar de Botafogo, para o show de lançamento do EP “Autograph”, além das músicas de seu primeiro CD “White”, gravado em Oxford, na Inglaterra. No palco, Mariana (voz e violão) é acompanhada por Jorge Solovera (violão), com as participações especiais de Jam da Silva (percussão) e Lui Coimbra (violoncelo).

R$40,00 Bilheteria
R$30,00 primeiras 100 à chegarem
R$20,00 meia e lista amiga (enviar nome completo para musicanosolar@gmail.com)

IMPERDÍVEL!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MARCELO JENECI

vi ontem um show lindo e delicado e leve e emocionante! marcelo jeneci com sua banda e orquestra recebendo convidados como marcelo camelo e tulipa ruiz e foi incrível! sou fã, comprei o disco e quero mais shows. nem vou ficar falando muito, se você não conhece, corra pro youtube e divirta-se!
tirei fotos no show, veja clicando aqui:

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

KAZUO OKUBO

© Foto de Kazuo Okubo.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

MAPAS

pesquisando texturas, cores, formas, curvas, tons, semi-tons, sombras...
slide show de fotos no flicker

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

DE PONTA CABEÇA

áurea martins é uma das minhas cantoras favoritas. sempre que posso vou ouví-la. muito bem acompanhada de excelentes musicos e repertório impecável, áurea é uma das grandes vozes da música brasileira. herdeira da linhagem nobre da MPB, assim com letras maiúsculas, áurea é guerreira, forte, intérprete única. seu novo disco 'de ponta cabeça', coroa essa cantora com uma certa pecha de cantora de fossa, de desilusões, não é à toa, nesse caso, já que o disco destila as dores de amor de hermínio bello de carvalho, autor de todas as músicas. de qualquer modo, vale a pena ouvir áurea martins, sempre e muito! recomendo, muitíssimo, as apresentações da cantora, que sempre nos surpreende do alto dos seus 70 anos!

domingo, 31 de outubro de 2010

NO CAOS DA MUDANÇA

me livrei de uns 300 livros, de uns 300 cd's, de uns 40 dvd's, de quilos e quilos de papel, de cadernos antigos e  anotações esparsas. depois vou peneirar os brinquedos de clarice, minhas roupas e as coisas de cozinha.
estou fazendo esse exercécio de limpeza sem dó nem piedade, e a cabeça, a seu modo, nesse processo, vai se limpando junto, como que operando no modo frost free, auto-limpante, sei lá. de qualquer forma, sinto que toda mudança é renovação forte. sacudir a poeira é bom e organizar a vida nas prateleiras, melhor ainda. todo caos carrega a estabilidade com ele, caminha em direção a quietude. e gosto bastante desses rodopios dialéticos que a vida nos oferece, de tempos em tempos, nos momentos certos. a vida não nos engana!

sábado, 30 de outubro de 2010

RETRATO DA BOCA DEPOIS DO BEIJO

ele me ligou da porta de casa exatamente as oito e meia, horário marcado pro encontro. eu, que detesto esperar, já contei um ponto. chegamos no restaurante e tínhamos a melhor mesa reservada. vista para o aterro do flamengo. árvores ao vento e carros passando. adoro o ritual de um jantar, da escolha das bebidas ao cafezinho. decidimos por uma malbec encorpado e água. entradinha leve pra não perder o apetite e papo, muito papo recheado com charme por todos os lados.  o prato principal estava incrível, escolhi um nhoque de abóbora com aspargos, absolutamente bem feito e delicioso. comer devagar e degustar é um privilégio. estava tudo perfeito e a sobremesa só veio coroar todos os sabores. depois, pra continuar a conversa, cafezinho e licor. não existe jantar perfeito que não termine com um contreau. e daí mais café e mais licor e mais papo... já meio embriagados saimos pela madrugada quente... o abraço de despedida exalou cheiros e os breves toques foram comedidos. o beijo foi roubado no último minuto, na porta do elevador de casa, não pude evitar...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

DES-ENCONTRO

eu queria ter dito "suas unhas estão grandes", mas pensei na chapeuzinho vermelho e no ridículo dessa fala. mesmo porque não havia nada pra ser falado... queria ter tocado a ponta do seu nariz queimado... queria também ter abraçado as suas mãos com as minhas e sentido o frio que escorria delas. queria ter ido até a sua nuca, mas fiquei com medo de vomitar os cheiros. tremulei por fora quando você me tocou, as duas vezes que me tocou, meio que pra tirar um cisco, pra puxar uma linha da minha saia. nos olhamos através de várias lentes, mas não deu pra ver nada direito. recusei o presente, quase me arrependi. pacha mama que me perdoe. fiquei com a sensação de que as duas garrafas gêmeas de água não mataram sede alguma. queria ter dito que o amor não é uma porta, mas portais. mas não havia amor algum em nenhum lugar, tampouco portais.... o silêncio que se instalou também não disse nada. só o sol quente e a sombra fresca fizeram sentido naquele encontro absurdo... ainda me pergunto como pode uma distância tão grande numa proximidade tão enorme. coisas da vida e desse viver que é tão perigoso. na despedida, caminhei pelo sol e pela grama verde. o telefone tocou, atendi, um convite pra jantar. aceito? a vida se encaminha de andar sozinha...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CIMITARRA SUICIDA

sinto uma angústia maior que todas as angústias juntas.  há dias que não me vejo num espelho de verdade, pois cometi um crime contra mim mesma. sinto pânico diante do que está a minha frente e dentro de mim. minhas mãos culpadas, minha consciência perdida, meu equilíbrio em transe. e tudo o que vejo é um espelho, tudo me diz: "isso é você, o pior que existe dentro do você. olha, vê."  há dias não durmo direito, há dias quase nada como. tudo aconteceu quando, num segundo, nem sei ao certo como as coisas se sucederam, eu fiquei cega diante de uma verdade que eu não queria saber, uma verdade que me maltratava, uma verdade que me excluia tão profundamente e tristemente que me perdi de mim mesma e me tornei isso que se mostra agora. era uma verdade maquiada por um desejo louco que só respondia a impulsos obscenos e libidinosos. era uma verdade não prescrita no pacto da honestidade prometida, era uma verdade que não cabia nem nas máscaras que outrora vestíamos, nem no rosto lavado com que nos mostrávamos. era uma verdade dolorida que me deixou sem sangue na face, colocou meu coração na garganta e o meu olhar vago como o de um desvalido. meu coração disparado e aos pulos foi crescendo dentro de mim, me sufocando, batendo forte e me asfixiando.. você que me lê, já sentiu o sangue se esvair das faces? sabe o que é isso?  quase sumi, quase virei uma poça d'agua, quase derreti. e não era um verdade escondida, eram muitas que, ao mesmo tempo, num só gesto, destruiram todo o castelo de admiração e desejo. temi pela minha sanidade e estava certa, pois a perdi completamente. e diante da minha loucura, da minha insanidade e da dificuldade de manter o equilibrio frente a essa realidade difícil de entender ou impossível de ser digerida, cometi o crime. punição minha para comigo mesma. punição última e irretorquível. agora acabou, agora morri. quem escreve é uma morta. não sobrou nada, meu mundo caiu e com ele o que fui e que agora não sou mais, nem de longe, e que jamais serei novamente. mas não tive escolha, ou eu me matava ou eu morria à mingua, insone, sonânbula, vadia, faminta. e escolhi, assim, diante do estrangulamento do meu coração, diante de seus pulos insanos, diante de meu desfalecimento irrefreável, enfiar minha mão pela garganta e arrancá-lo. arranquei-o de uma vez de dentro de mim, não ficou nem um pedaço, nada que tivesse vida, pulso ou que demonstrasse qualquer movimento. e com meu coração na mão, inquieto, louco, sangrando ainda, tentei reanimá-lo no sentido de fazer com que ele voltasse a bater como antes, com a tranquilidade de antes, com a sanidade de antes, com o sopro de antes. mas ele não respondeu, estava duro e crescendo. e ai não pude evitar mais nada, não vi mais nada, não lembro direito de nada. o que eu sei bem é que, de posse de uma cimitarra suicida, na cozinha de azulejos brancos imaculados, dilacerei meu próprio coração. fatiei-o todo como uma carne qualquer. foi o gesto mais cruel que já fiz comigo mesma. doeu, sofri, me matei. e cada fatia desse músculo involuntário ainda pulsava sozinha, sangrava sozinha, esvaia-se completamente e se desligava de mim... peguei, então, cada uma dessas fatias ainda trêmulas e espalhei por toda a minha cama. e não feliz de ver cada parte de mim espalhada, formando uma grande mancha sobre os meus lençóis, empapando de escarlate o meu colchão. separei cada uma dessas partes e passei, pacientemente, a ferro quente, cada parte dele, de um lado e de outro, bem devagar. como quem enfia uma faca no peito de alguém e gira lentamente, pra ferida não fechar nunca... e agora, tostado, seco, negro, sem sangue e sem vida, resta ali espalhado como um corpo esquartejado. um lixo dormente e triste que não consigo me livrar, não posso me livrar, pois ali, espalhado sobre a minha cama, aos pedaços, em fatias e irreconhecível, jaz o único coração que ainda tenho.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

CADERNO DE ESBOÇOS

uma das imagens do meu caderno de esboços intitulado "aula de educação artística ou algumas dicas de como ser gente grande".

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

POR QUE NÃO VOTO

Não vou votar na Marina porque ela tem um lado reacionário justificado pela sua opção de se vincular à igreja que, por favor, não dá! Não vou votar no Serra pelos motivos óbvios, minha formação de esquerda não permite! Não vou votar da Dilma, porque acho ‘dilmais’ um governo ficar no poder tanto tempo! Não vou votar no Plínio porque ele não vai ganhar mesmo! E no PSTU também não voto porque sequer sei o nome do candidato.
Então, não voto, vou anular o voto em nome do meu lado anarquista que, vez ou outra, me empurra a ser contramão, ladeira à baixo, à contrapelo. E já que pra presidente não vou votar, deixo de lado o meu voto pra governador, o Cabral já ganhou mesmo, então.... Resta a possibilidade de ajudar a escolher os dois deputados, mesmo com nomes certamente honrosos em candidatura, também não vou votar em ninguém. Tenho vergonha do nosso parlamento, o Estadual e o Federal, então, sem chance, NÃO VOTO, NÃO VOTO, NÃO VOTO! Mesmo porque sou contra o voto obrigatório e acho absolutamente repugnante ser obrigado a escolher um cara porque ele é o menos pior. Também não faço campanha pro voto nulo, só manifesto minha posição. E agora, chega de porquês!

FOTO ESCAMBO


uma das coisas mais bacanas do Paraty em Foco foi, certamente, o Foto Escambo. idéia genial do Hans em promover um troca-troca de fotografias da mais alta qualidade e que permitiu outras inúmeras trocas: papos na fila, assinaturas e dedicatórias, divulgação de tantos e tão bons fotógrafos e, mais importante de tudo, talvez, a reunião num mesmo varal de fotos de fotógrafos consagrados com amadores que não fazem feio de jeito nenhum. além disso, o escambo promove um gosto que pode ser eterno, colecionar fotografias. tem coisa mais gostosa do que colecionar imagens que você gosta, escolhe, quer ter perto de você, estampar na sua parede, olhar todos os dias? eu trouxe pra casa fotos de Dani Bado, Geraldo Garcia, Du Ribeiro, Gabriela di Bella, Pepe Melega, Eduardo Muylaert, Dorival Moreira entre outros. ganhei algumas fotos, dei outras... sei que cheguei no rio de janeiro com 12 fotos novas! estou orgulhosíssima da minha pequena coleção. aqui vai uma pequena amostra: a foto do guarda-chuva é da Di Bella, a do menino de Du Ribeiro. estou torcendo pra eles virem fazer um belo varal no FotoRio!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

GEORGES ROUSSE

georges rousse é um típico francês, homem pequeno, observador, super meticuloso e tão, mais tão discreto que está sempre com a mesma roupa, calça e camiseta pretas. na instalação desse grande painel com a sua foto no mercado de peixes de paraty ele quase passou mal. no vocabulário de um homem tão organizado, de pensamento tão meticuloso, racional e super calculado, pouco cabe o que nós, brasileiros, conhecemos bem: o improviso. um pequeno erro de cálculo foi resolvido com uma furadeira e uma ripa pelo caiçara que, sem entender nada daquele trabalho e muito menos patavina daquela língua, era mestre no quebra-galho, doutor na gambiarra, como diríamos. agora vai explicar pro cara o que é gambiarra?! é claro que, no final, tudo deu certo. a obra ficou linda e foi fantástico entender e ver e sentir o trabalho desse homem. lembro de ter visto uma exposição de georges rousse, aqui no rio, na casa frança brasil. extremamente pífia diante do imenso e criativo universo desse grande artista. que bom foi estar em paraty e re-descobrí-lo! sou agora uma grande admiradora!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O QUE RESTA A DIZER

acho triste uma pessoa que não sabe mensurar o quanto recebeu de outra, sinal maior de que não mereceu nada do que lhe foi dado. acho feio não agradecer o que se recebe e, mais ainda, não saber o que se recebeu, principalmente quando nada foi pedido. poucas pessoas sabem dar e elas são raras. acho difícil acreditar em alguém que não acredita em si mesmo. tenho pena das pessoas que vestem uma máscara que é estranha ao seu próprio rosto. nenhuma máscara pode ser estranha ao rosto que a veste. pois quando a máscara cai a decepção de quem vê a realidade é grande demais. e olhar-se no espelho, ao acordar todo dia, depois de todas as fantasias que o mundo oferece e não se reconhecer, também pode ser cruel demais.
sinto pena de homens solitários, pois eles serão sempre solitários, embora vez ou outra enganem a solidão com alguma companhia. a solidão é, na verdade, a sua única companhia. vejo com tristeza o desejo de certas pessoas de fugir do destino delas, de não exergar o presente que a vida deu, dá e dará....  querer conquistar o mundo jogando fora  aquilo que lhe é ofertado não é o melhor caminho...a  maior prova da mentira é quando duas pessoas, depois de dedicarem algum tempo das suas vidas juntas, não conseguem ser cordiais e amáveis entre si. se não sobrou nada é porque nada houve... a maior prova de egoísmo é dar as costas para alguém que te considera imensamente no justo momento em que ela está mais fragilizada e enfraquecida. e o pior pecado é não saber reconhecer esse momento... vaidade é querer construir uma imagem que não cabe na sua vida, na sua luta diária, no prato de comida que você come. tenho pavor de pessoas que querem esquiar na suiça ou velejar nas bahamas e não sabem nem um décimo do que acontece no mundo da pessoa que limpa a sua casa, lava o seu banheiro. tenho nojo de quem não sabe agradecer um carinho sincero, mesmo quando ele vem fora de hora. tenho pena das pessoas que se alimentam e precisam dos eternos presentinhos/brinquedinhos do papai, do titio, do vovô. essa gente nunca vai crescer, nunca vai reconhecer o valor das coisas, nunca vai conquistar nada seu de fato. passar dos trinta anos e não perceber certas coisas é insistir no erro da imaturidade e da fantasia. espero eu estar no caminho certo..

MUDANÇA

um sentimento de não-lugar anda em invandindo, alías, tenho usado bastante essa palavra. o que não é por acaso. queria me mudar, e vou. mas eu queria me mudar mesmo, de verdade, de cidade, de paisagem, de ares. queria dar uma virada de 180 graus, pra cima ou pra baixo ou pros lados. mas a pequena mudança de moradia já vai ser boa. devo me mudar de apartamento em meados de outubro. vou livrar de vários passados e de várias coisas. quero levar somente o que eu preciso e somente o que se refere a mim. não quero levar nada que não seja meu, conquista minha. quero uma casa com a minha cara. não que esta não seja, minha casa sempre foi uma espécie de palácio, de reino, é assim que me sinto em casa...em todos os lugares onde já vivi sempre procurei dar o meu jeito, o meu toque, o meu contorno... mas o fato é que não quero objetos que não sejam meus. vou dar uma geral nos livros, cd's, lp's, quadros, fotos... quero deixar só aquilo que ouço, que li ou vou mesmo ler, o que quero ver todo dia... não vou guardar nada que não tenha uso. a não ser aquele ponche de lã espanhola que guardo pros invernos mais frios, a colcha de cetim metelassado que realmente não sei se usarei algum dia, a rede que meu pai trouxe de uma viagem e que nunca foi usada mas que espero viver num lugar onde eu possa estendê-la e ficar de 'range rede' e as velhas máquinas fotográficas que quero ter ao alcance dos olhos. vou doar uma boa parte das minhas roupas, me livrar de antigas roupas de cama, toalhas gastas, panos de prato surrados. a cozinha também vai sofrer um limpa geral mas, quero guardar ainda a quase insignificante coleção de pequenas xícaras de porcelana e as panelas que eu mais gosto, apesar de não precisar de todas no dia a dia. vou me livrar de papéis velhos, antigas fitas VHS, rascunhos, retalhos e coisas que já nem sei mais porque estão comigo. quero guardar o mais importante em caixas, envelopes e pastas novas, coloridas e em lugar de fácil acesso. quero ser mais organizada ainda, pois só assim minha concentração funciona no pico. não vou ter mais TV a cabo e muito menos TV na sala, TV vai ficar no quarto pra um DVD em dias de chuva... concessão que faço em nome da minha filha, pois se morasse sozinha hoje não teria televisão de jeito nenhum. quero pintar uma das paredes do apartamento de vermelho!

domingo, 12 de setembro de 2010

PALE BLUE EYES

adoro o youtube, e quem não gosta? fonte infinita de pesquisas e viagens no tempo e no espaço. hoje, um bom pedaço do meu ócio é youtube. principalmente agora que aumentei a velocidade da minha internet.... e uma das coisas que eu mais gosto no youtube e ficar ouvindo várias e várias versões de uma mesma música. elejo uma canção memorável e lá vou vasculhar versões. não preciso mais ficar gravando, ao longo de dias, numa fitinha K7, as várias versões 'every time we say goodbye', nem ficar baixando as músicas, uma a uma, do soulseek pra compor a minha pasta no computador somente com as diversas versões de alguma música do caymmi, por exemplo. e hoje eu fui ouvir o disco da marisa monte 'cor de rosa e carvão'. esse é um disco que eu sempre incluo na minha lista de discos preferidos mas, ouço pouco. e descobri o porquê. eu ouvi muito esse disco, assim que foi lançado (1994/1995). foi um período muito gostoso da minha vida, saindo de uberlândia e indo pra são paulo, momento de uma importante conquista, um grande passo em direção à independência e à conquista do meu mundo. e ouvindo hoje o sinto datado demais mas, tem coisas lindas mesmo. qual outra cantora no brasil que gravou george harrinson, paulinho da viola, lou reed e jorge ben em um mesmo disco? essa mistura é muito pessoal e deu um contorno muito bonito ao projeto que soa bastante biográfico, coisa que a cantora leverá bem mais a sério no decorrer de sua correira lançando 'memórias, crônicas e declaraçõe de amor', projeto que inclui fotografias e autorretratos e, posteriormente, o conjunto de dois discos 'universo ao meu redor' e 'infinito particular'. infelizmente não ouvi atentamente esses últimos. bom, mas foi por conta de 'pale blue eyes', essa linda canção, que começei a escrever isso aqui. ouvi algumas das versões seguidamente e conclui que a melhor delas pra mim seria a da banda 'velvet underground', apesar de achar sensacional marisa monte, romero lubambo e naná vasconcelos na versão de 'cor de rosa e carvão' e adorar a verve de patti smith ao interpretar essa música. das versões do lou reed eu não poderia falar mas, aí me deparei com ele e pete townshend cantando juntos e desbundei, a melhor pra mim, sem dúvida!