quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

MAPAS

pesquisando texturas, cores, formas, curvas, tons, semi-tons, sombras...
slide show de fotos no flicker

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

DE PONTA CABEÇA

áurea martins é uma das minhas cantoras favoritas. sempre que posso vou ouví-la. muito bem acompanhada de excelentes musicos e repertório impecável, áurea é uma das grandes vozes da música brasileira. herdeira da linhagem nobre da MPB, assim com letras maiúsculas, áurea é guerreira, forte, intérprete única. seu novo disco 'de ponta cabeça', coroa essa cantora com uma certa pecha de cantora de fossa, de desilusões, não é à toa, nesse caso, já que o disco destila as dores de amor de hermínio bello de carvalho, autor de todas as músicas. de qualquer modo, vale a pena ouvir áurea martins, sempre e muito! recomendo, muitíssimo, as apresentações da cantora, que sempre nos surpreende do alto dos seus 70 anos!

domingo, 31 de outubro de 2010

NO CAOS DA MUDANÇA

me livrei de uns 300 livros, de uns 300 cd's, de uns 40 dvd's, de quilos e quilos de papel, de cadernos antigos e  anotações esparsas. depois vou peneirar os brinquedos de clarice, minhas roupas e as coisas de cozinha.
estou fazendo esse exercécio de limpeza sem dó nem piedade, e a cabeça, a seu modo, nesse processo, vai se limpando junto, como que operando no modo frost free, auto-limpante, sei lá. de qualquer forma, sinto que toda mudança é renovação forte. sacudir a poeira é bom e organizar a vida nas prateleiras, melhor ainda. todo caos carrega a estabilidade com ele, caminha em direção a quietude. e gosto bastante desses rodopios dialéticos que a vida nos oferece, de tempos em tempos, nos momentos certos. a vida não nos engana!

sábado, 30 de outubro de 2010

RETRATO DA BOCA DEPOIS DO BEIJO

ele me ligou da porta de casa exatamente as oito e meia, horário marcado pro encontro. eu, que detesto esperar, já contei um ponto. chegamos no restaurante e tínhamos a melhor mesa reservada. vista para o aterro do flamengo. árvores ao vento e carros passando. adoro o ritual de um jantar, da escolha das bebidas ao cafezinho. decidimos por uma malbec encorpado e água. entradinha leve pra não perder o apetite e papo, muito papo recheado com charme por todos os lados.  o prato principal estava incrível, escolhi um nhoque de abóbora com aspargos, absolutamente bem feito e delicioso. comer devagar e degustar é um privilégio. estava tudo perfeito e a sobremesa só veio coroar todos os sabores. depois, pra continuar a conversa, cafezinho e licor. não existe jantar perfeito que não termine com um contreau. e daí mais café e mais licor e mais papo... já meio embriagados saimos pela madrugada quente... o abraço de despedida exalou cheiros e os breves toques foram comedidos. o beijo foi roubado no último minuto, na porta do elevador de casa, não pude evitar...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

DES-ENCONTRO

eu queria ter dito "suas unhas estão grandes", mas pensei na chapeuzinho vermelho e no ridículo dessa fala. mesmo porque não havia nada pra ser falado... queria ter tocado a ponta do seu nariz queimado... queria também ter abraçado as suas mãos com as minhas e sentido o frio que escorria delas. queria ter ido até a sua nuca, mas fiquei com medo de vomitar os cheiros. tremulei por fora quando você me tocou, as duas vezes que me tocou, meio que pra tirar um cisco, pra puxar uma linha da minha saia. nos olhamos através de várias lentes, mas não deu pra ver nada direito. recusei o presente, quase me arrependi. pacha mama que me perdoe. fiquei com a sensação de que as duas garrafas gêmeas de água não mataram sede alguma. queria ter dito que o amor não é uma porta, mas portais. mas não havia amor algum em nenhum lugar, tampouco portais.... o silêncio que se instalou também não disse nada. só o sol quente e a sombra fresca fizeram sentido naquele encontro absurdo... ainda me pergunto como pode uma distância tão grande numa proximidade tão enorme. coisas da vida e desse viver que é tão perigoso. na despedida, caminhei pelo sol e pela grama verde. o telefone tocou, atendi, um convite pra jantar. aceito? a vida se encaminha de andar sozinha...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CIMITARRA SUICIDA

sinto uma angústia maior que todas as angústias juntas.  há dias que não me vejo num espelho de verdade, pois cometi um crime contra mim mesma. sinto pânico diante do que está a minha frente e dentro de mim. minhas mãos culpadas, minha consciência perdida, meu equilíbrio em transe. e tudo o que vejo é um espelho, tudo me diz: "isso é você, o pior que existe dentro do você. olha, vê."  há dias não durmo direito, há dias quase nada como. tudo aconteceu quando, num segundo, nem sei ao certo como as coisas se sucederam, eu fiquei cega diante de uma verdade que eu não queria saber, uma verdade que me maltratava, uma verdade que me excluia tão profundamente e tristemente que me perdi de mim mesma e me tornei isso que se mostra agora. era uma verdade maquiada por um desejo louco que só respondia a impulsos obscenos e libidinosos. era uma verdade não prescrita no pacto da honestidade prometida, era uma verdade que não cabia nem nas máscaras que outrora vestíamos, nem no rosto lavado com que nos mostrávamos. era uma verdade dolorida que me deixou sem sangue na face, colocou meu coração na garganta e o meu olhar vago como o de um desvalido. meu coração disparado e aos pulos foi crescendo dentro de mim, me sufocando, batendo forte e me asfixiando.. você que me lê, já sentiu o sangue se esvair das faces? sabe o que é isso?  quase sumi, quase virei uma poça d'agua, quase derreti. e não era um verdade escondida, eram muitas que, ao mesmo tempo, num só gesto, destruiram todo o castelo de admiração e desejo. temi pela minha sanidade e estava certa, pois a perdi completamente. e diante da minha loucura, da minha insanidade e da dificuldade de manter o equilibrio frente a essa realidade difícil de entender ou impossível de ser digerida, cometi o crime. punição minha para comigo mesma. punição última e irretorquível. agora acabou, agora morri. quem escreve é uma morta. não sobrou nada, meu mundo caiu e com ele o que fui e que agora não sou mais, nem de longe, e que jamais serei novamente. mas não tive escolha, ou eu me matava ou eu morria à mingua, insone, sonânbula, vadia, faminta. e escolhi, assim, diante do estrangulamento do meu coração, diante de seus pulos insanos, diante de meu desfalecimento irrefreável, enfiar minha mão pela garganta e arrancá-lo. arranquei-o de uma vez de dentro de mim, não ficou nem um pedaço, nada que tivesse vida, pulso ou que demonstrasse qualquer movimento. e com meu coração na mão, inquieto, louco, sangrando ainda, tentei reanimá-lo no sentido de fazer com que ele voltasse a bater como antes, com a tranquilidade de antes, com a sanidade de antes, com o sopro de antes. mas ele não respondeu, estava duro e crescendo. e ai não pude evitar mais nada, não vi mais nada, não lembro direito de nada. o que eu sei bem é que, de posse de uma cimitarra suicida, na cozinha de azulejos brancos imaculados, dilacerei meu próprio coração. fatiei-o todo como uma carne qualquer. foi o gesto mais cruel que já fiz comigo mesma. doeu, sofri, me matei. e cada fatia desse músculo involuntário ainda pulsava sozinha, sangrava sozinha, esvaia-se completamente e se desligava de mim... peguei, então, cada uma dessas fatias ainda trêmulas e espalhei por toda a minha cama. e não feliz de ver cada parte de mim espalhada, formando uma grande mancha sobre os meus lençóis, empapando de escarlate o meu colchão. separei cada uma dessas partes e passei, pacientemente, a ferro quente, cada parte dele, de um lado e de outro, bem devagar. como quem enfia uma faca no peito de alguém e gira lentamente, pra ferida não fechar nunca... e agora, tostado, seco, negro, sem sangue e sem vida, resta ali espalhado como um corpo esquartejado. um lixo dormente e triste que não consigo me livrar, não posso me livrar, pois ali, espalhado sobre a minha cama, aos pedaços, em fatias e irreconhecível, jaz o único coração que ainda tenho.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

CADERNO DE ESBOÇOS

uma das imagens do meu caderno de esboços intitulado "aula de educação artística ou algumas dicas de como ser gente grande".

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

POR QUE NÃO VOTO

Não vou votar na Marina porque ela tem um lado reacionário justificado pela sua opção de se vincular à igreja que, por favor, não dá! Não vou votar no Serra pelos motivos óbvios, minha formação de esquerda não permite! Não vou votar da Dilma, porque acho ‘dilmais’ um governo ficar no poder tanto tempo! Não vou votar no Plínio porque ele não vai ganhar mesmo! E no PSTU também não voto porque sequer sei o nome do candidato.
Então, não voto, vou anular o voto em nome do meu lado anarquista que, vez ou outra, me empurra a ser contramão, ladeira à baixo, à contrapelo. E já que pra presidente não vou votar, deixo de lado o meu voto pra governador, o Cabral já ganhou mesmo, então.... Resta a possibilidade de ajudar a escolher os dois deputados, mesmo com nomes certamente honrosos em candidatura, também não vou votar em ninguém. Tenho vergonha do nosso parlamento, o Estadual e o Federal, então, sem chance, NÃO VOTO, NÃO VOTO, NÃO VOTO! Mesmo porque sou contra o voto obrigatório e acho absolutamente repugnante ser obrigado a escolher um cara porque ele é o menos pior. Também não faço campanha pro voto nulo, só manifesto minha posição. E agora, chega de porquês!

FOTO ESCAMBO


uma das coisas mais bacanas do Paraty em Foco foi, certamente, o Foto Escambo. idéia genial do Hans em promover um troca-troca de fotografias da mais alta qualidade e que permitiu outras inúmeras trocas: papos na fila, assinaturas e dedicatórias, divulgação de tantos e tão bons fotógrafos e, mais importante de tudo, talvez, a reunião num mesmo varal de fotos de fotógrafos consagrados com amadores que não fazem feio de jeito nenhum. além disso, o escambo promove um gosto que pode ser eterno, colecionar fotografias. tem coisa mais gostosa do que colecionar imagens que você gosta, escolhe, quer ter perto de você, estampar na sua parede, olhar todos os dias? eu trouxe pra casa fotos de Dani Bado, Geraldo Garcia, Du Ribeiro, Gabriela di Bella, Pepe Melega, Eduardo Muylaert, Dorival Moreira entre outros. ganhei algumas fotos, dei outras... sei que cheguei no rio de janeiro com 12 fotos novas! estou orgulhosíssima da minha pequena coleção. aqui vai uma pequena amostra: a foto do guarda-chuva é da Di Bella, a do menino de Du Ribeiro. estou torcendo pra eles virem fazer um belo varal no FotoRio!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

GEORGES ROUSSE

georges rousse é um típico francês, homem pequeno, observador, super meticuloso e tão, mais tão discreto que está sempre com a mesma roupa, calça e camiseta pretas. na instalação desse grande painel com a sua foto no mercado de peixes de paraty ele quase passou mal. no vocabulário de um homem tão organizado, de pensamento tão meticuloso, racional e super calculado, pouco cabe o que nós, brasileiros, conhecemos bem: o improviso. um pequeno erro de cálculo foi resolvido com uma furadeira e uma ripa pelo caiçara que, sem entender nada daquele trabalho e muito menos patavina daquela língua, era mestre no quebra-galho, doutor na gambiarra, como diríamos. agora vai explicar pro cara o que é gambiarra?! é claro que, no final, tudo deu certo. a obra ficou linda e foi fantástico entender e ver e sentir o trabalho desse homem. lembro de ter visto uma exposição de georges rousse, aqui no rio, na casa frança brasil. extremamente pífia diante do imenso e criativo universo desse grande artista. que bom foi estar em paraty e re-descobrí-lo! sou agora uma grande admiradora!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O QUE RESTA A DIZER

acho triste uma pessoa que não sabe mensurar o quanto recebeu de outra, sinal maior de que não mereceu nada do que lhe foi dado. acho feio não agradecer o que se recebe e, mais ainda, não saber o que se recebeu, principalmente quando nada foi pedido. poucas pessoas sabem dar e elas são raras. acho difícil acreditar em alguém que não acredita em si mesmo. tenho pena das pessoas que vestem uma máscara que é estranha ao seu próprio rosto. nenhuma máscara pode ser estranha ao rosto que a veste. pois quando a máscara cai a decepção de quem vê a realidade é grande demais. e olhar-se no espelho, ao acordar todo dia, depois de todas as fantasias que o mundo oferece e não se reconhecer, também pode ser cruel demais.
sinto pena de homens solitários, pois eles serão sempre solitários, embora vez ou outra enganem a solidão com alguma companhia. a solidão é, na verdade, a sua única companhia. vejo com tristeza o desejo de certas pessoas de fugir do destino delas, de não exergar o presente que a vida deu, dá e dará....  querer conquistar o mundo jogando fora  aquilo que lhe é ofertado não é o melhor caminho...a  maior prova da mentira é quando duas pessoas, depois de dedicarem algum tempo das suas vidas juntas, não conseguem ser cordiais e amáveis entre si. se não sobrou nada é porque nada houve... a maior prova de egoísmo é dar as costas para alguém que te considera imensamente no justo momento em que ela está mais fragilizada e enfraquecida. e o pior pecado é não saber reconhecer esse momento... vaidade é querer construir uma imagem que não cabe na sua vida, na sua luta diária, no prato de comida que você come. tenho pavor de pessoas que querem esquiar na suiça ou velejar nas bahamas e não sabem nem um décimo do que acontece no mundo da pessoa que limpa a sua casa, lava o seu banheiro. tenho nojo de quem não sabe agradecer um carinho sincero, mesmo quando ele vem fora de hora. tenho pena das pessoas que se alimentam e precisam dos eternos presentinhos/brinquedinhos do papai, do titio, do vovô. essa gente nunca vai crescer, nunca vai reconhecer o valor das coisas, nunca vai conquistar nada seu de fato. passar dos trinta anos e não perceber certas coisas é insistir no erro da imaturidade e da fantasia. espero eu estar no caminho certo..

MUDANÇA

um sentimento de não-lugar anda em invandindo, alías, tenho usado bastante essa palavra. o que não é por acaso. queria me mudar, e vou. mas eu queria me mudar mesmo, de verdade, de cidade, de paisagem, de ares. queria dar uma virada de 180 graus, pra cima ou pra baixo ou pros lados. mas a pequena mudança de moradia já vai ser boa. devo me mudar de apartamento em meados de outubro. vou livrar de vários passados e de várias coisas. quero levar somente o que eu preciso e somente o que se refere a mim. não quero levar nada que não seja meu, conquista minha. quero uma casa com a minha cara. não que esta não seja, minha casa sempre foi uma espécie de palácio, de reino, é assim que me sinto em casa...em todos os lugares onde já vivi sempre procurei dar o meu jeito, o meu toque, o meu contorno... mas o fato é que não quero objetos que não sejam meus. vou dar uma geral nos livros, cd's, lp's, quadros, fotos... quero deixar só aquilo que ouço, que li ou vou mesmo ler, o que quero ver todo dia... não vou guardar nada que não tenha uso. a não ser aquele ponche de lã espanhola que guardo pros invernos mais frios, a colcha de cetim metelassado que realmente não sei se usarei algum dia, a rede que meu pai trouxe de uma viagem e que nunca foi usada mas que espero viver num lugar onde eu possa estendê-la e ficar de 'range rede' e as velhas máquinas fotográficas que quero ter ao alcance dos olhos. vou doar uma boa parte das minhas roupas, me livrar de antigas roupas de cama, toalhas gastas, panos de prato surrados. a cozinha também vai sofrer um limpa geral mas, quero guardar ainda a quase insignificante coleção de pequenas xícaras de porcelana e as panelas que eu mais gosto, apesar de não precisar de todas no dia a dia. vou me livrar de papéis velhos, antigas fitas VHS, rascunhos, retalhos e coisas que já nem sei mais porque estão comigo. quero guardar o mais importante em caixas, envelopes e pastas novas, coloridas e em lugar de fácil acesso. quero ser mais organizada ainda, pois só assim minha concentração funciona no pico. não vou ter mais TV a cabo e muito menos TV na sala, TV vai ficar no quarto pra um DVD em dias de chuva... concessão que faço em nome da minha filha, pois se morasse sozinha hoje não teria televisão de jeito nenhum. quero pintar uma das paredes do apartamento de vermelho!

domingo, 12 de setembro de 2010

PALE BLUE EYES

adoro o youtube, e quem não gosta? fonte infinita de pesquisas e viagens no tempo e no espaço. hoje, um bom pedaço do meu ócio é youtube. principalmente agora que aumentei a velocidade da minha internet.... e uma das coisas que eu mais gosto no youtube e ficar ouvindo várias e várias versões de uma mesma música. elejo uma canção memorável e lá vou vasculhar versões. não preciso mais ficar gravando, ao longo de dias, numa fitinha K7, as várias versões 'every time we say goodbye', nem ficar baixando as músicas, uma a uma, do soulseek pra compor a minha pasta no computador somente com as diversas versões de alguma música do caymmi, por exemplo. e hoje eu fui ouvir o disco da marisa monte 'cor de rosa e carvão'. esse é um disco que eu sempre incluo na minha lista de discos preferidos mas, ouço pouco. e descobri o porquê. eu ouvi muito esse disco, assim que foi lançado (1994/1995). foi um período muito gostoso da minha vida, saindo de uberlândia e indo pra são paulo, momento de uma importante conquista, um grande passo em direção à independência e à conquista do meu mundo. e ouvindo hoje o sinto datado demais mas, tem coisas lindas mesmo. qual outra cantora no brasil que gravou george harrinson, paulinho da viola, lou reed e jorge ben em um mesmo disco? essa mistura é muito pessoal e deu um contorno muito bonito ao projeto que soa bastante biográfico, coisa que a cantora leverá bem mais a sério no decorrer de sua correira lançando 'memórias, crônicas e declaraçõe de amor', projeto que inclui fotografias e autorretratos e, posteriormente, o conjunto de dois discos 'universo ao meu redor' e 'infinito particular'. infelizmente não ouvi atentamente esses últimos. bom, mas foi por conta de 'pale blue eyes', essa linda canção, que começei a escrever isso aqui. ouvi algumas das versões seguidamente e conclui que a melhor delas pra mim seria a da banda 'velvet underground', apesar de achar sensacional marisa monte, romero lubambo e naná vasconcelos na versão de 'cor de rosa e carvão' e adorar a verve de patti smith ao interpretar essa música. das versões do lou reed eu não poderia falar mas, aí me deparei com ele e pete townshend cantando juntos e desbundei, a melhor pra mim, sem dúvida!

sábado, 11 de setembro de 2010

SEPTEMBER SONG

tenho especial apreço pelos meses de abril e setembro. nasci em abril, pleno outono. e adoro setembro, mês que mistura uma certa frescura do inverno com o sol caloroso da primavera. adoro ver flores brotando como adoro ver folhas caindo. círculo da vida. e hoje, pra combinar com uma certa melancolia fora de época, acordei com vontade de ouvir o lindo disco "sarah vaughan with clifford brown'. e neste disco tem as canções 'september song' e 'april in paris'. canções que me fizeram prometer a mim mesma que ainda vou passar um outono em nova york e uma primavera em paris. promessa que já é uma dívida comigo mesma. esse disco, além do trompete de brown e da voz de sarah vaughan, ainda tem a flauta de herbie mann, o piano de jimmy jones e o sax de paul quinichette, entre outros feras. quase todos negros e todos muito jovens. as fotos são assinadas pelo craque william claxton. escolhi pra postar 'september song', que, apesar de trazer o clima outonal do hemisfério norte, homenageia esse mês que me renova, me agrada e me presenteia. vale a pena ter esse disco ao alcance das mãos, sempre.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

VILA VENTA


há exatamente um ano eu brincava com o vento que soprava. há um ano eu ria como uma criança. o lugar era vila velha, no alto de um morro, lugar bom pra se ver toda a cidade e o bonito encontro no horizonte do mar azul com o céu anil. vila velha venta muito. e o vento de lá brincou comigo. deu voltas em mim, me fez feliz. ah, que saudade de brincar com o vento...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

SOBRE O CERRADO E SOBRE MIM

o cerrado tem um alquimia muito própria, como todos os lugares, mas é aqui que o céu tem mil cores, uma luz única, um luar resplandencente, uma noite cheia de estrelas e uma natureza que se renova marcando perfeitamente o seu tempo. aqui é o meu lugar de origem, chão de onde brotei, lugar onde me sinto em paz e em equilíbrio. é nesse ambiente que me recolho pra 'muda', troca das penas, da pele, da casca, renovação total, reciclagem geral de sentimentos. banho nas cachoeiras que me viram tantas vezes, do sol da manhã na porta da casa da minha infância, os velhos e bons amigos que, mesmo de longe e mesmo com o passar dos anos e de todas as diferenças, me amam e me respeitam. aqui eu tenho o carinho e o amparo incondicional da minha querida família, o tempero da minha mãe, o cheiro da minha tia, o olhar de meu pai. aqui admiro as flores que eu, desde muito menina, colhia num buquê de variedade enorme - as flores do cerrado, tão pequeninas, secas e duradouras. aqui é quente de dia e fresco a noite. aqui enxergo o meu avô cortando cana pras crianças da casa, sorrindo pra mim, trazendo das suas caminhadas belos ramos de canela pra encher a casa com o aroma do chá que eu mais adoro. aqui meu pai sempre chega. aqui me lembro do homem que passava com um carrinho dizendo: "algodão doooce, trooooca-se a garrafa." e corríamos juntando todas as garrafas verdes e amarelas dos vizinhos pra trocar pela nuvem colorida de açúcar que derretia na boca.... aqui, na infância, trocávamos fios de cobre por pipoca, brincávamos de pique-alto, carimbada, de pular corda. aqui, na rua da minha casa, até hoje calçada de paralelepípedos, quase nunca passava carros, a rua era nossa e no final dela morava um brejo com tabocas altas e rãs branquinhas que pegávamos pra comer. minha mãe odiava que eu usasse as panelas dela pra fazer rã... aqui tem um pé de cajamanga docinha e uma vizinha com horta verde, verdinha, cheia de cebolinha, salsinha, couve fresca, xuxu. aqui sempre tem algum vizinho chegando de alguma fazenda carregado de baldes ou caixotes de manga, laranja, cachos de banana, tudo dependendo da estação. aqui me lembro com imensa nitidez da amiga de infância da minha bisavó, já bem velhinha, sentada no portão de sua casa, tomando a fresca - eu sempre gostei de conversar com ela sobre a minha vozinha. aqui vejo os meus sobrinhos crescerem, meu pai envelhecer, minha mãe se renovar e descobrir outros mundos. aqui vejo meus traços no rosto da minhas irmãs. aqui me vejo sem precisar de espelho algum. aqui tudo sou eu.  pro cerrado eu sempre volto, sempre voltarei. essa paisagem é minha e aqui eu também sou paisagem.

domingo, 29 de agosto de 2010

SUPEREXPOSTA

correndo contra a luz oblíqua que inunda o largo do machado me vejo mais sombra e silhueta do que pés, pernas e sapatos que atravessam a rua. folhas de chá caem da minha bolsa, restejam pelo asfalto, vestígios que o vento se encarrega de levar. camelôs, táxis, motoristas e uma pequena multidão transeunte não percebem que entro no ônibus pensando em você.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O EFÊMERO E O PERPÉTUO

“o que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.
Roland Barthes

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

LAPSOS DO TEMPO


fotografia de felipe cohen
procuro cultivar o gesto de falar sobre imagens que  me inspiram. e  algumas delas, especialmente, me instigam de maneira desconcertante.  e desde que vi essa fotografia sinto-me estimulada a falar algo. precipito-me, portanto, nesse exercício e corro o risco do  óbvio ululante e de não conseguir tampouco traduzir em palavras aquilo que vejo.

o que mais seduz nessa imagem e a sobreposição dos tempos que se mostram. há o tempo do instantâneo, do click, o tempo do agora, em que a ruína está sendo escamada e descascada para receber um outro tempo, o futuro do presente, expresso no olhar atento e concentrado da mulher que reflete sobre aquele espaço como uma  conjugação do passado com o presente e o futuro. tudo se revela no tempo suspenso da observação da ruína e que se sustenta no gesto indagador.

os tons e semi-tons amarelados das paredes descamadas e dos cabelos da mulher caminham, de maneira sutil, em direção a um sépia que aponta, decisivamente, para uma névoa de tempo que paira sobre a imagem. e no exato instante que esse névoa de tempo começa a se dissipar, a imagem se volta para o passado, mais precisamente, pode-se dizer, para o passar dos anos,  à ação do tempo sobre as coisas. e mais do que mostrar épocas distintas ou a idade das coisas, essa fotografia é pura memória do tempo. viva, transformadora e  inquietante.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

TRAVESSA EURICLES DE MATOS

a travessa euricles de matos é apenas uma quadra. fica entre a rua das laranjeiras e a rua conde de baependi. não tem nenhum prédio. somente casarões e árvores habitam essa rua, que é linda e empresta um visual completamente bucólico pra esse pedacinho tão movimentado de carros e pessoas que é essa redondeza. quem passa por ela sabe que ela é um atalho para os moradores de laranjeiras. seus casario é antigo antigo, deve datar de meados do século, ou um pouco antes. tem muita cor nessa travessinha. os casarões são coloridíssimos e tem muito verde também. mas, infelizmente, a noite é super mal iluminada e serve de abrigo para mendigos e de banheiro para cachorros. é uma pena o descaso da prefeitura em relação a esse pequeno oásis para os olhos de quem mora numa cidade grande tão verticalizada. eu passo por ali todos os dias, é o meu caminho da roça, ou melhor, o caminho da escola da minha filha. o melhor caminho até a escola da minha filha.  eu poderia fazer outros trajetos mas sempre passo por ali, tem sombra, pouco movimento e, principalmente, cores. resolvi, então, registrar o meu olhar sobre a travessa. um olhar de quem atravessa a travessa. há uma variedade de desenhos, grades, lustres, vidros, fechaduras e caixas de correio.  voilà!
mais fotos aqui.